Cenário psicossocial no
umbral do milênio

 

Marco Aurélio Fernandez Velloso


É sabido que o final dos séculos mobiliza nos seres humanos ansiedades específicas e provoca o aparecimento de padrões de conduta peculiares.

A Torre Eifel em Paris, e, no detalhe,
o calendário regressivo para o ano 2000.

Esse fenômeno parece estar ligado ao fato de que, para os humanos, a vida do dia a dia adquire significado na medida em que contém, ao mesmo tempo, um passado e uma perspectiva de futuro.

Para muitas pessoas, a aproximação do fim de um século, e mais ainda, de um milênio, parece estreitar esta perspectiva de futuro. É um fenômeno que, do ponto da psicopatologia, poderia ser classificado entre os sintomas de psicose: na verdade, o fim simbólico de um período de duração é compreendido de um modo concreto, transformando-se, nos casos menos graves, numa espécie de sentimento de estreitamento dos horizontes de tempo e, nos mais graves, numa real crença no fim dos tempos. É o caso do velho refrão: mil passará, dois mil não chegará.

Essa sensação de estreitamento do horizonte de tempo, ou essa crença de fim dos tempos, mobiliza ansiedades primitivas de alto poder motivacional: medos de perda e ansiedade de morte, fundamentalmente, capazes de provocar fortes processos de depressão.

Ainda nessa mesma perspectiva do déficit de simbolização, a ultrapassagem do marco psicológico da passagem (ou seja, a chegada de 2001) certamente provocará, em muitos, o fenômeno contrário: a súbita euforia, o desafogo da tensão diante de um horizonte de tempo magicamente estendido para além do limite da expectativa média de vida.

Para além desses aspectos gerais, que permanecem no pano de fundo da consideração do contexto psicossocial no umbral do novo milênio, é fundamental também considerar outras questões importantes.

Em conseqüência da aceleração das mudanças econômicas e sociais neste fim de século, e da perspectiva hoje já bastante aceita de que esse processo se prolongará, no mínimo, até a metade do próximo século, o grande mal contemporâneo e que, provavelmente, será dominante durante grande parte do século XXI, é o da anomia.

De fato, a aceleração das mudanças traz consigo a perda de referências sociais (normas, valores, pautas de conduta), e se constitui, tanto do ponto de vista coletivo quanto individual, numa ameaça à integridade da identidade dos indivíduos e dos grupos sociais.

De um lado, as pautas culturais, e as formas institucionais de organização econômica e social, estão a cada dia se tornando, e de forma acelerada, obsoletas e inadequadas diante das inovações que o desenvolvimento tecnológico, a integração planetária das comunicações e a globalização da economia, propõem a todo instante.

Essa conjunção de umbral de novo milênio com a aceleração dos processos de mudança cria, portanto, um contexto psicossocial paradoxal: de um lado, estamos diante da abertura de possibilidades absolutamente novas e criativas para a humanidade, com um leque de recursos que viabilizam, pela primeira vez na História, uma gama incrível de novos potenciais de realização para os seres humanos; de outro, a perda de referências e as ansiedades a que acima nos referimos provocam a disseminação, em larga escala, do fenômeno da anomia, o que aumenta a freqüência do aparecimento de comportamentos inesperados, muitas vezes carregados de alto teor de destrutividade.

Essa experiência do paradoxo é muito concreta, e dela não há como escapar.

Possibilidades novas de comunicação, de expressão, de transporte e de criação borbulham ao nosso redor: a Internet é um desses novos recursos que se disseminam com uma velocidade impressionante, constituindo-se num exemplo muito visível, mas não único. Recursos digitais, meios de comunicação cada vez mais interativos e personalizados, integram-se a cada dia na intimidade de nossa vida, e provocando mudanças de conduta de uma força impressionante. Em razão deles, estamos assistindo ao surgimento de uma nova forma de solidariedade entre os seres humanos que independe de barreiras geográficas ou de limites políticos definidos pelas fronteiras de países, e encaminhando-se muito rapidamente para a consolidação de uma espécie de consciência de cidadania global.

Ao mesmo tempo, e num sentido inverso mas concomitante, sentimos os efeitos da barbárie que se dissemina na civilização em razão da anomia: fanáticos, suicidas, perversos, surgem como que de repente, e de forma espetacular, do próprio cerne do quotidiano, quase sem qualquer razão aparente ou motivação especial, espalhando terror e destrutividade, muitas vezes com um cinismo impressionante e descarado.

Uma particularidade da anomia é o da instabilidade de respostas comportamentais, que parecem não se enquadrar em nenhum dos modelos patológicos com os quais nos habituamos a lidar; ou melhor, num momento, a resposta de conduta pode corresponder a uma forma para, logo a seguir, se apresentar sob aspecto inteiramente diverso. É em razão disso que, como profissionais de saúde mental, o sentimento de impotência — tantas vezes inconfesso — muitas vezes nos assalta: como bem sabemos, já não há mais loucos como os de antigamente!

A anomia e o ciclo de destruição e reconstrução de pautas culturais

Na verdade, para que uma nova civilização surja, é necessário destruir os referenciais segundo os quais vivemos, para reconstruí-los logo adiante, de novo destruí-los para, mais uma vez, reconstruí-los, e assim sucessivamente.

Até que novas pautas surjam e se institucionalizem, há grande confusão, levando de roldão nações inteiras, povos e pessoas.

De fato, essa destruição e essa reconstrução se fazem quotidianamente, e quase imperceptivelmente, no diuturno e inexorável processo de reprodução e inovação das relações sociais: sua repetição, no entanto, resulta numa acumulação quantitativa que termina por se transformar numa mudança qualitativa que, no mínimo, nos surpreende, quando não nos assusta.

Este processo destrutivo-construtivo é a marca indelével de nossa espécie e a anomia é a companheira inseparável das grandes mudanças históricas. Porque os saltos históricos da humanidade foram e serão sempre dramáticos, frente a impasses cujos limites pareciam intransponíveis aos seus contemporâneos; e as conquistas da civilização cobraram no passado, estão cobrando no presente, e cobrarão ainda mais no futuro, um alto preço em vidas humanas.

Na verdade, a resposta sadia à anomia implica num constante movimento de avanço e de recuo: avanço na experienciação das mudanças e dos novos recursos que se tornam disponíveis para a realização de nossas potencialidades criativas; recuo na busca do refúgio das relações interpessoais e intragrupais confiáveis, para, aí, se iniciar a reconstrução de novas referências.

Esse é o processo pelo qual, quotidianamente, e ao mesmo tempo, superamos a anomia reinante, para repô-la, de novo, e com mais intensidade, no momento seguinte. Resulta, na verdade, na reconstrução de vínculos no espaço cotidiano das configurações dos grupos, das famílias e das instituições.

É nesse espaço que está o verdadeiro laboratório social da mudança, é aí que começam a ser experimentados novos padrões de conduta, e é daí que emergem, para se generalizarem na sociedade, através da mídia e dos comportamentos coletivos, as novas pautas culturais criadas para preencher o vazio das referências perdidas.

E é por tudo isso que a psicologia social, particularmente a psicologia dos grupos, das instituições e das comunidades, assume especial importância no umbral do novo milênio.

Cada vez mais os comportamentos coletivos se tornam fundamentais para o êxito da construção desse novo mundo que se descortina diante de nós. E os psicólogos sociais podem, na verdade, contribuir muito mais do que estão contribuindo para que as pessoas adquiram mais rapidamente recursos para se adaptarem melhor a esse processo de mudança acelerada e de criação do novo.

É necessário que se abram mais para a interdisciplinariedade, que desenvolvam um novo olho clínico e novos métodos de intervenção, menos estereotipados e mais próximos do cotidiano das pessoas, para exercerem com maior eficácia seu papel neste momento tão desafiante da História da Humanidade.

 

Artigo publicado no site do InterPsic: http://www.interpsic.com.br/saladeleitura/texto44.html , São Paulo. 1.997