Conversagem

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Provocações a partir da Filosofia e Psicologia
sobre o
Mundo Contemporâneo e o Cotidiano do Sujeito

Teoria e prática do humanismo possível



 
 
Conversagem

O PROJETO

Por Marco A. F. Velloso

Criamos o neologismo CONVERSAGEM (conversa + aprendizagem) em 2005, para designar eventos do InterPsic que visam abordar conflitos e mal-estares do cotidiano, procurando falar deles com as pessoas, além de investigar referenciais teóricos que permitam sua análise e elaboração.

Por diferentes razões, estes eventos foram interrompidos e retomados diversas vezes, ao sabor do montante das ansiedades presentes no ambiente.
Neste início de 2019 estamos retomando, novamente, este projeto. As circunstâncias atuais, carregadas de manifestações emocionais de toda ordem e portadoras de cisões ideológicas muito profundas, recomendam uma abordagem como esta. A resposta quase imediata de um número significativo de pessoas ao anúncio do projeto confirma esta percepção.

Introduzimos uma inovação importante. Com os avanços da tecnologia nos últimos anos, estamos propondo uma experiência ousada: um grupo aberto, virtual (pelo WhatsApp e YouTube) e presencial ao mesmo tempo.
Já havíamos experimentado esta integração entre o virtual e o presencial. Basta lembrar do Interforum, um grupo de discussão pela Internet que remonta a 1997, assim como a utilização de recursos de WebTV com janela de Chat para a transmissão de eventos presenciais, que também remontam à mesma época.
Hoje, no entanto, os grupos por WhatsApp (que são mais rápidos, criptografados e, ao mesmo tempo, permitem a identificação dos participantes), conjugados com a transmissão em canal fechado do YouTube com seu Chat, oferecem soluções tecnológicas mais ágeis, garantindo, ao mesmo tempo, a privacidade indispensável a tais atividades. Exploraremos outros recursos oferecidos no ambiente da WEB e, na medida da oportunidade e eficácia, procuraremos integrá-los ao projeto.

É importante ressaltar, logo de início, a característica fundamental deste grupo: é voltado para líderes, um espaço destinado ao debate e elucidação de contradições, um lugar de busca de lucidez. Portanto, é um grupo, ao mesmo tempo, de troca de informações e de análise, no sentido mais original freudiano. Por isso, é um lugar privilegiado!

Não é um grupo de ação, no entanto. O lugar da ação é o da vida cotidiana de seus integrantes, inseridos em suas relações sociais as mais diversas, desempenhando seus diferentes papéis, onde exercem, na prática, sua liderança.

A finalidade deste texto é a de expor com clareza os fundamentos desse projeto, seu contexto, a metodologia de trabalho e outras observações pertinentes.

A proposta

O projeto Conversagem pretende promover intercâmbio, troca de informações, através do estímulo mútuo, da construção de vínculos (e-vínculos, como denominamos este tipo de relação) sustentados numa perspectiva de liberdade:


conversagem = conversa + aprendizagem


O fundamental é a interatividade que nos estimula, uns aos outros, a pensar com nossos próprios botões, a dialetizar, a descobrir outras implicações e aberturas, expressá-las com a própria boca e a própria pena (lápis, pincel, câmera, instrumento musical, mídias digitais...), indagar sobre o mundo contemporâneo, investigar o humanismo possível na sociabilidade entre sujeitos frente à ruptura civilizatória que vivemos, questionar o sentido das mediações presentes nas relações cotidianas entre seres humanos.

Para isso, é necessário um enquadramento que transmita confiabilidade, sem a qual o tipo de interatividade que propomos não ocorre.
Nosso enquadramento tem seu maior fundamento na consistência da condução da dinâmica grupal, com direção filosófica bem definida: enfoque humanista materialista dialético, com a contribuição da psicanálise, para a compreensão do ser humano e de seus conflitos cotidianos, sob os princípios da psicologia social operativa.

Objetivamos dessacralizar o conhecimento, já que o pensar é livre e se opõe a cultos, dogmas, castas, imposições de submissão de qualquer natureza: o conhecimento nunca é definitivo, já que a cada passo descortina, de novo, o novo, e desemboca em novas indagações. E a democratização do conhecimento é o primeiro fundamento de toda proposta inclusiva.

Por isso, a Conversagem está aberta a todos, independentemente de classe, cor, grau de instrução, especialidade profissional. Mas pressupõe uma convergência ideológica.

É dessa forma que acreditamos corresponder às necessidades de quem é consciente do momento singular que a humanidade atravessa, no geral, e do quadro dramático que vivemos em nosso país.
Mais que isso: de quem, imerso nas contradições atuais, se compromete com a abertura de novas trilhas para a civilização e a humanidade.

O contexto

As últimas eleições no Brasil demonstraram à saciedade que o país está rachado ao meio. Há uma clara divisão ideológica que cinde as relações sociais, políticas, econômicas, penetrando o cotidiano de um modo imperativo. Rachadura, aliás, que está também presente em todas as longitudes e latitudes do mundo contemporâneo.

Por isso, começo por delinear, de um modo bastante genérico – é verdade –, o enquadramento ideológico básico das atividades da Conversagem.

Em princípio, acreditamos que as pessoas, particularmente as que integram o campo da esquerda, ainda estão um pouco zonzas com tudo que aconteceu no ano passado.
A direita cresceu de uma forma inesperada. Podemos dizer que já estamos numa ditadura. A lama de Brumadinho, mais do que uma realidade trágica, é uma enorme metáfora do que estamos vivendo. Penetra no cotidiano e nos arrasta contra a nossa vontade.

Escrevi em outro lugar que não se trata mais de luta entre civilização e barbárie. Estamos diante de um confronto entre civilização e boçalidade. De repente, descobrimos a extensão da vulgaridade que atravessa nossas relações sociais.

Mais do que nunca valem as palavras de Lênin:

"É preciso sonhar, mas com a condição de crer em nosso sonho, de observar com atenção a vida real, de confrontar a observação com nosso sonho, de realizar escrupulosamente nossas fantasias. Sonhos, acredite neles."
[Lênin, Vladimir Ilitch — Que Fazer? As Questões Palpitantes do Nosso Movimento. Hucitec. São Paulo, 1988]

Ultrapassamos o limite da possibilidade de conciliações, não há mais espaço para meios-termos. Estamos caminhando celeremente para um “ou vai ou racha” de consequências imprevisíveis.

Embora os riscos, as atividades da Conversagem partirão do pressuposto da rebeldia, da insubmissão. É sábio, neste momento, o princípio angular de Estado Maior em situações de guerra: não se confraterniza com o inimigo em campo de batalha.

Esperamos que os participantes, além de comungarem com princípios básicos democráticos, inclusivos, de defesa da soberania popular, procurem ser respeitosos uns com os outros.

Li, certa vez, um comentário de Glória Kalil, a especialista em etiquetas, em que dizia que a Lei me permite sair na rua sem ter medo de ser assassinado na primeira esquina, enquanto a Etiqueta evita que enlouqueça ao me relacionar com outros.

Por mais relativas que sejam ambas as afirmativas nos insanos tempos em que vivemos, considero que estas considerações fazem sentido. Por isso, espero que possamos conviver, tanto no grupo presencial quanto no virtual, com o mínimo indispensável de etiqueta e netiqueta (a etiqueta das relações nas redes).
É indispensável certa pompa e circunstância no convívio social. Sendo assim, que se cumpram o que prescrevem os estatutos da nossa gafieira.

No quadro trágico que se desdobra à nossa vista, percebemos um mundo atolado em contradições. É necessário, no entanto, reconhecer que há contradições dialetizáveis e contradições irredutíveis, dilemáticas e estéreis.

As primeiras se resolvem no confronto de teses, antíteses e sínteses, seguindo o curso da dialética da história, tanto no plano individual quanto social. Sustentam-se em argumentos, contra-argumentos, desdobramentos de ideias e inovação nas práticas sociais. Têm como espaço privilegiado para sua resolução o diálogo, a negociação, a conciliação, o acordo, em suma, a práxis.

Já as últimas se resolvem na luta política e, em última instância, na insurreição. Temo que, a médio prazo, no caso brasileiro, seja inevitável o confronto nas ruas.

Os que pensam assim, com justas razões, dados os contornos do quadro político e do confronto de forças hoje presentes no país e no mundo, se sentem ameaçados, inclusive em sua incolumidade física.
O que não justifica, no entanto, a imobilidade, a paralisia. Em momentos históricos como o atual, é fundamental manter a lucidez e contribuir para o fortalecimento de uma militância esclarecida.

A proposta da Conversagem procura oferecer, por mais modesta que seja, uma contribuição efetiva neste sentido.

Modo de funcionamento

A experiência de minha geração — que amargamos longos anos de ditadura — ensina que, nesta situação, é necessário pertencer a grupos. Ninguém larga a mão de ninguém, diz a palavra de ordem. É o primeiro passo para se obter um mínimo de segurança diante dos riscos que somos obrigados a confrontar.
Este pertencimento é o primeiro ganho que a Conversagem pode oferecer.

Para além disso, propõe a instituição de um espaço para a discussão de ideias, fundamental neste momento, dentro de referências claras, para alicerçar a lucidez indispensável para a existência em ambientes inóspitos como os que se apresentam à nossa frente.

Nossa referência básica está na psicologia social operativa, mais conhecida pela sua aplicação técnica através dos grupos operativos.
Esta perspectiva faz confluir um ponto de partida filosófico materialista dialético e histórico com a perspectiva psicanalítica, aplicando estas vertentes de análise ao exame dos fenômenos presentes na rede de relações sociais do cotidiano.

Num momento como este, carregado de emergentes sociais portadores de alta carga de ansiedades, aparecem a todo momento no ambiente social, conflitos, dilemas, situações difíceis de serem tratadas.
Poderia enumerar muitos casos concretos de manifestações no cotidiano de situações limite que merecem reflexão. Vou poupar-me, e aos leitores, desta ladainha, já que todos nós recolhemos diuturnamente inúmeros exemplos desses tipos de emergentes.

A ideia original deste projeto Conversagem propunha reuniões semanais presenciais, onde pudéssemos discutir situações desse tipo, analisá-las, buscando referências teóricas para elaborá-las.

A grande inovação ocorreu, no entanto, quando divulgamos a proposta de organização de um grupo de WhatsApp para servir de apoio e permitir maior integração entre os participantes, facilitando também a integração de pessoas que estão geograficamente distantes ou que, por outros motivos, tenham dificuldade de se encontrarem pessoalmente com as demais.

O grupo de WhatsApp se organizou muito rapidamente, a partir do convite que fizemos a contatos já registrados em nossa agenda.

De certo modo, a vitalidade que este grupo virtual adquiriu inverteu a ordem de nossa proposta inicial. Na verdade, a partir dessas primeiras semanas de funcionamento, fica claro que o núcleo do novo projeto Conversagem é o grupo virtual e que as reuniões presenciais estão assumindo o papel complementar, reforçando a integração das pessoas, permitindo o conhecimento face-a-face e realimentando a troca de mensagens pelo WhatsApp.
Óbvio que as reuniões presenciais são necessárias e desejáveis. Há uma qualidade de troca e de interação num grupo presencial que é insubstituível e que, através de recursos virtuais de interação, é impossível de ser suplantada.

Não há como iniciar um projeto desta natureza sem conflitos. Ocorreram confusões iniciais no começo do grupo virtual que, por sinal, eram de se esperar, inevitáveis. Pelo modo como as pessoas foram convidadas (confesso que um pouco às cegas), o conflito ideológico logo se evidenciou.

Algumas pessoas, em resposta ao convite, logo se manifestaram como partidárias do resultado das últimas eleições, manifestando posições típicas de oposição às propostas inclusivas e de democracia popular soberana correspondentes aos posicionamentos alinhados às esquerdas. Estes conflitos logo se resolveram com a saída destas pessoas do grupo virtual.

É bom esclarecer que não adotaremos uma posição partidária, mas, obviamente, nos alinharemos a posicionamentos políticos, estratégicos e ideológicos humanistas, inclusivos, democráticos, desenvolvimentistas e favorecedores da garantia da soberania popular. Em outros termos, como já esclarecemos acima, um posicionamento ideológico progressista de esquerda.

Pressupomos que os participantes compartilhem princípios de inclusão social, promoção de uma democracia interpelativa, de maiores oportunidades econômicas, culturais e sociais, enfim, dessa temática que une e divide as esquerdas. Há muito o que refletir.

Reforçando: não pretendemos que este seja um grupo de ação. É um grupo de reflexão. Voltado para pessoas que exercem, de várias formas, papéis de liderança.

Modo de retribuição e sustentabilidade

O projeto Conversagem se propõe a agregar valor: valor simbólico, principalmente, na medida em que pretende oferecer condições de elaboração de conflitos, aquisição de conhecimento, construção de lucidez na análise do bombardeio de informações a que estamos submetidos, enfim, de aprendizagem.

Este valor que a Conversagem agrega, no entanto, não é diretamente redutível ao valor-fetiche capitalista.
O valor-fetiche capitalista é moeda expropriada da concretude das relações reais entre seres humanos. Se impõe como critério último para mediar as relações de troca entre sujeitos na civilização atual, já que, todos nós, somos reduzidos à condição de integrantes de um mercado cada vez mais extenso e global. Portanto, é um conceito impróprio para nossa finalidade: nos tempos presentes, mais do que nunca, serve à violência, à dominação e ao genocídio em escala planetária.

Nosso projeto é uma proposição de tarefa na qual todos os participantes, movidos por suas necessidades, possam se engajar. Cada qual em um papel diferenciado, se articula com os demais, tolerando frustrações e procurando produzir os meios possíveis de, em parte, satisfazê-las.
É na medida que a tarefa oferece respostas realistas às necessidades dos participantes que ela se legitima, gera valor e merece ser preservada. É a partir deste cerne de legitimidade que aspira continuidade.
Esse é o cerne do compromisso que nos une.

É do interior desse movimento que surge a descoberta dos critérios éticos que a presidem, do sentido radical do valor do humano que ela comporta: olho no olho, entre sujeitos concretos, situados e relacionados, transpassados, ao mesmo tempo e a cada momento, por frustrações e satisfações.
A ética, então, é a do comprometimento mútuo com as condições necessárias à sustentação dessa tarefa.

É na trama discreta desse compromisso, na tolerância ao entrechoque de necessidades e frustrações e na tentativa reiterada a todo instante de produção de algo novo que mais uma vez frustra e satisfaz, que a dimensão mais profunda das ideias de retribuição e sustentabilidade surgem como mediações necessárias para as relações de sociabilidade entre sujeitos.

Por isso, na Conversagem (conversa + aprendizagem), processo e produto fundamental dessa tarefa, o compromisso primeiro é com a interação ativa, participativa, voltada para a construção do novo.
Sem fetiches no entremeio: por isso, não conferimos certificados, não somos uma instituição acadêmica, nem nos propomos a integrar o sistema oficial de ensino. Não nos outorgamos poder autorizante sobre quem se engaja na conversagem: quem certifica a aprendizagem é o próprio sujeito que aprende, na sua relação de mútua modificação com o mundo em que vive.

O compromisso de retribuição pela participação ativa é condição necessária, mas não suficiente, para a sustentabilidade do projeto: há condições econômicas que têm que ser encaradas com realismo.
A implementação do projeto Conversagem exige recursos materiais e humanos, sem os quais deixa de ser sustentável. Há trabalho, físico e intelectual, além de custos financeiros, implicados em sua manutenção.

Como sustentar um projeto desta natureza, cujas proposições remetem a referenciais socialistas, num mundo capitalista? Como não desgarrar do real, para terminar com os pés solidamente plantados no ar?
A questão que se põe, portanto, é a de recuperarmos o sentido humano da troca.

Há muitos anos o InterPsic procura se pautar, nesse campo, a partir dos dois velhos e salutares princípios socialistas:
* A cada um segundo suas necessidades
* De cada um segundo suas possibilidades


Na prática, isso significa adotar duas posturas fundamentais:
* Ninguém é excluído de nossas atividades por motivos econômicos
* Todos devem assumir o compromisso ético de retribuir o que recebem ao participar da tarefa contribuindo para sua sustentação, segundo suas possibilidades.


Entre princípios e práticas, fica a questão de como operacionalizar estas ideias, de forma concreta.
Decidimos estabelecer dois modos diferentes de retribuição, cada um deles comportando diversas opções de valores, a saber:

Retribuição pela participação no grupo virtual (WhatsApp):
O participante pode optar por contribuições recorrentes de valores diferentes
10, 20, 30, 40 ou 50 reais, ou uma contribuição única de valor livre, através de preenchimento de formulário próprio, via PagSeguro.
Para efetivar sua retribuição pela participação no grupo virtual, clique no link próprio.

Retribuição pela participação no grupo presencial:
O participante presencial também poderá optar por contribuições de valores diferentes a cada reunião a que comparecer:
10, 20, 30, 40 ou 50 reais, ou uma contribuição única de valor livre, a ser paga no local e horário da reunião.
O pagamento poderá ser feito em dinheiro ou através de cartão de crédito ou débito.

Retribuição pela participação
no grupo virtual (WhatsApp):

Forma de inscrição

 

Para se inscrever como participante do projeto Conversagem, pede-se o preenchimento da Ficha de Inscrição constante de formulário próprio acessível através do link abaixo.
Tão logo receba o convite de participação pelo WhatsApp, pede-se ao participante que se apresente ao grupo.

 

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Equipe de coordenação


Coordenador:
Marco Aurélio F. Velloso

Filósofo, administrador, psicólogo, psicanalista e analista institucional.
Desenvolve atividades de consultoria institucional há mais de 40 anos.
T
radutor para o português da obra fundamental de Pichon Rivière, o criador dos grupos operativos, O Processo Grupal (*).
Coautor da biografia intitulada A operatividade da psicanálise vivida por Enrique José Pichon-Rivière (**).

Observador:
Nilton Regis Filomeno

Psicólogo, especialista em grupos operativos e em instituições do terceiro setor.
Integra a equipe de coordenação do InterPsic.

(*) PICHON RIVIÈRE, E. O Processo Grupal. Série Psicologia e Pedagogia. Trad. Marco Aurélio Fernandez Velloso; Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Martins Fontes, 1983.

(**) VELLOSO, M. MEIRELES, M. A operatividade da psicanálise vivida por Enrique José Pichon-Rivière. São Paulo: Velloso Digital, 2014

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Localização


Sede do InterPsic:

Av. Diógenes Ribeiro de Lima, 454
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